quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

AS VERDADEIRAS CARACTERÍSTICAS DA MESAGEM DO EVANGELHO

AS VERDADEIRAS CARACTERÍSTICAS DA MENSAGEM DO EVANGELHO:


UMA ABORDAGEM EXEGÉTICA DE 1ª JOÃO 1.1-4.

Rev. João Ricardo Ferreira de França*



O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida 2 (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), 3 o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. 4 Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa.



Introdução:



Muitas vezes lemos a 1ª epístola de João tendo a noção de que ela versa sobre o amor a Deus; todavia, tal ponderação, ainda que verdadeira, não reflete necessariamente todo o conteúdo da carta. E analisando a mesma de uma forma mais detalhada podemos dizer que há pontos nela que continuam a ser negligenciados pela Igreja.

A teologia Bíblica se insere em nosso contexto como uma resposta aos desafios que a sistematização das Escrituras parece sugerir. A revelação neotestamentária precisa ser entendida e avaliada para que haja uma apologética cristã; uma catequização sólida e por fim, haja uma aplicação prática da Palavra de Deus em nossa época e para o nosso povo. Esta é de fato a tarefa do teólogo Bíblico (como exegeta que deve ser). O presente estudo visa trabalhar questões no campo da teologia exegética visando ajudar aos leitores na compreensão da Palavra de Deus. Visando assim uma valorização pelo evangelho e a sua mensagem.

O trabalho que leitor tem em suas mãos destina-se a avaliar o ensino do apóstolo João sobre a mensagem da encarnação de Cristo e qual a sua relevância para a vida da Igreja cristã ao longo dos séculos.

A motivação para lidar com texto de 1 João 1.1-4 surgiu quando trabalhando com exposição bíblica seqüenciada observamos que havia duas posições que se inseriam na interpretação do texto citado, uns diziam que a temática destes versículos vinculava-se a pessoa de Cristo e não a mensagem sobre a sua encarnação; outros sugeriam que tratava-se apenas da mensagem do evangelho de Cristo. Então, dentro de nossas limitações, optamos em trabalhar este texto – curiosamente percebemos que o texto trabalha as implicações da verdadeira mensagem do evangelho que se fundamenta na encarnação de Cristo.

As implicações extraídas exegeticamente deste texto vislumbram uma visão global da vida cristã, pois, a universalidade da epístola sugere isso. O evangelho e sua mensagem fundamentam-se no testemunho ocular dos apóstolos; na certeza da encarnação visando promover a comunhão entre a Igreja, os apóstolos e o Deus Trino.

ELUCIDAÇÃO:

A) Autoria:

Quem é o autor desta tão singular carta? Esta tem sido a pergunta que muitos têm levantado concernente a presente epístola. Há muita discussão sobre este assunto. Onde buscar informações confiáveis para se estabelecer à autoria desta carta? O teólogo John R.W.Stott nos diz que “o lugar natural onde buscar informações sobre alguma epístola antiga, é a própria epístola”. Este tem sido o pensamento dos teólogos conservadores no que diz respeito à análise de algum documento neotestamentário.

1. Evidências Externas:

A primeira classe de evidências que podemos apresentar é a classe das evidências externas, ou seja, provas fora da própria epístola. No que diz respeito à autoria um escritor nos informa que “Policarpo, discípulo de João cita 1 Jo 4.3, em sua Carta aos Filipenses” E ainda Eusébio diz, na sua História Eclesiástica ,que Papias, Ouvinte de João e Amigo de Policarpo,citava esta carta como sendo da lavra de João,o apóstolo. Irineu cita esta carta com abundância em sua obra Contra as Heresias . “Orígenes é um dos primeiros a advogar a autoria desta epístola como sendo da pena do apóstolo João. Clemente de Alexandria diz que esta é maior das cartas de João”.

2. Evidências Internas:

A segunda classe de evidências é aquela que chamamos de interna, ou seja, dentro da carta procuramos indícios de quem tenha de fato sido o autor da referida epístola. A maioria dos comentaristas sustenta que há uma certa e profunda relação desta epístola com a obra literária de João, o Apóstolo, talvez o quadro abaixo nos ajude a entender isso:

Evangelho I João II João III João

2.24 4.1-3 7 1

8.31 3.18 1 1

10.18 4.21 4 3

13.34 2.7 5

14.21 5.3 6

15.11;16.24 1.4 12,13 13,14

21.24 12



B) Local e Origem da Carta:

A questão que se levanta diante de nós é onde esta carta foi escrita? O teólogo Merril C.Tenney diz que “são indeterminados o tempo exato e o local onde foram compostas estas cartas, mas a opinião mais aceitável é que estes documentos forma escritos por João para envio às igrejas asiáticas..”. Um outro erudito nos fornece a seguinte informação: “Tradicionalmente, todas as três epístolas ‘joaninas’, bem como o evangelho de João, têm estado associados a Asia Menor, particularmente à cidade de Éfeso”

Alguma evidencia apontam para isso:

1) Policarpo nos informa que João tinha uma residência em Éfeso.

2) Irineu informa que João não desejava ficar sobre o mesmo teto com Cirinto, que era adversário da verdade, e por isso, foi morar em Éfeso e ali, segundo Irineu, João escreveu o seu evangelho para combater os hereges.



C) Destinatários:

Para quem João escreve esta epístola? Esta tem sido a grande pergunta dos circulos acadêmicos. Um grupo de euriditos afirma que a “primeira epístola não menciona nenhum destinatário e não preserva nenhuma saudação, nem agradecimento formal ou outros detalhes formais que normalmente caracterizariam uma carta do século I” Parece-nos que não há nada em toda a carta que nos direcione a uma posição dogmática quanto ao destino da carta.

Um erudito diz que “todas as três epístolas de João parecem ter sido endereçadas às comunidades cristãs da Ásia Menor,vários membros das quais eram conhecidas pelo autor sagrado”. Isso é importante para termos em mente que João tinha um coração tremendamente pastoral para com aquelas comunidades que ali estavam lutando pela verdade de Deus. “A tradição universal é que foram (as cartas) enviadas à uma província romana da Ásia, território modernamente conhecido como a Turquia”.

Carson nos apresenta uma verdade bastante singular sobre a questão do destinatário desta epístola dizendo que “a destinação geográfica não pode ser mais do que uma interferência apartir daquilo que é reconstruído do local de origem dos documentos.Por esse motivo essas epístolas foram enviadas a igrejas (e a um individuo) localizadas na região de Éfeso, inclluindo talvez, o território abrangido pelas sete igrejas do Apocalipse (2-3)”.

Os eruditos do Novo Testamento debatem entre si sobre a questão da data deste escrito. Que data João Escreveu esta carta? É uma indagação pertinente para o entendemos em que período o autor desta carta estava inserido.

Carson admite que “é impossível ter certeza a esse respeito” e por quê? Ele diz que a questão está no fato que “a decisão depende, em última instância, do entendimento que se tem dos propósitos respectivos do quarto evangelho”, e assim, teremos os propósitos das epístolas estabelecidos, sendo assim, a questão da data depende de como entendemos a mensagem do quarto do evangelho. E a grande dúvida reside em quem foi escrito primeiro, se foi o evangelho ou as epístolas? Adotamos a postura de que as epístolas foram escritas posteriormente ao quarto evangelho.

Alguns dizem que esta epístola poderia ter sido escrita no período de 85 a 90 d.C esta tem sido a data mais aceita dentro dos círculos acadêmicos conservadores. Esta parece ser uma data salutar para a carta em apreço. Embora exista algum erudito como Robinson que afirma não existir “uma necessidade absoluta de se datar os escritos joaninos para depois de 70 d.C.” A heresia do gnosticismo que estava rondando a igreja cristã do primeiro século força-nos a rejeitar a data de 90 , ficando, assim, com a data antes de 70 d.C



D) Propósito da Carta:

Qual é o propósito desta carta? Broadus diz que é “claramente, advertir os leitores acerca do perigo, para a fé cristã, das atividades e ensinos de homens heréticos...Contra três aspectos da heresia, João enfatiza muito fortemente a três marcas do cristianismo autêntico”. Estas três marcas são as seguintes:

a) Jesus é verdadeiramente Deus vindo em Carne.

b) Obediência aos mandamentos de Deus através de Jesus Cristo.

c) Uma atitude de amor a Deus e ao próximo.

Então, João usa estas três marcas para descrever o verdadeiro cristianismo para a igreja de Cristo. Ele escreve com a finalidade de refutar uma heresia muito específica naquela época.

Mas, qual o tipo de heresia contra a qual João escreve? Esta pergunta é pertinente para o nosso entendimento geral desta carta. A heresia é conhecida como o “Gnosticismo”. Mas qual é o tipo de Gnosticismo? Na época havia dois grupos de gnósticos, e estes dois grupos são:

1) O Docético – O termo aqui deriva de um verbo chamado dokeô que tem o sentido de aparecer, ensinava que Jesus não foi uma pessoa humana de verdade. O Docetismo indagava: Como um ser espiritual, ‘Cristo’ ou o ‘Filho de Deus’ , que por definição é bom,pode tornar-se carne, que por definição é má”?. O grande dilema aqui era que embora um ser espiritual, segundo os docetas, pudesse assumir a forma de carne temporariamente, jamais poderia tornar-se carne. E, assim a doutrina da encarnação era impossível dentro do sistema docetista e gnóstico.

2) O Cerintiano – O termo deriva de um certo homem chamado Cerinto de Alexandria que foi morar em Éfeso, foi contemporâneo de João e Policarpo. Irineu de Leão nos informa que este ensinava um gnosticismo chamado adocionista. O seu ensino consistia em que Jesus era o filho natural de José e Maria. Jesus não nasceu como o messias, mas se tornou tal quando foi batizado no Rio Jordão, no momento em que a pomba desceu sobre ele. Na Crucificação de Jesus o Cristo o deixou sofrendo na Cruz – Deus meu, Deus meu! Por que me desamparastes? – quem sofreu na cruz não foi o Cristo mais apenas um homem.

A Carta de João parece ser uma resposta adequada a ambos os sistemas gnósticos. Isso pode ser percebido nos capítulos 4.1-3;5.5-9. “O autor escreve para mostrar como alguém pode saber se está na verdade: A verdadeira teologia é que Jesus é o Filho de Deus(3.23;5.5,10,13) que Cristo veio verdadeiramente em Carne (4.2)”.

A carta parece está sendo escrita para combater uma espécie, ainda que incipiente, de gnosticismo. E assim fortalecer a igreja na verdade a respeito da encarnação de Cristo que tem sido a doutrina fundamental, a linha divisória entre o evangelho gerado por homens e o verdadeiro evangelho anunciado por Deus.



EXPOSIÇÃO:

O que nos chama atenção é fato que esta carta não tem um prefácio como as demais cartas do Novo Testamento. E isso nos faz questionar: no que se concentram tais versículos? Alguém já disse que este prefácio “está interessado essencialmente na proclamação apostólica do Evangelho”. Isso decorre do fato de que apenas o Evangelho poderia responder satisfatoriamente a questão das heresias gnósticas.

A ETERNINDADE DO VERBO COMO PRÓLOGO À ENCARNAÇÃO



A carta começa com uma nota altamente teológica “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da Vida”. O que este versículo tem a nos ensinar? Bem, consideremos algumas verdades:

A primeira verdade a ser considerada é a expressão “O que era desde o princípio...” No grego nós temos “ho en ap arches” o uso do verbo “en” aponta para o estado que não foi alterado, e o uso do substantivo “arches” indica algo intemporal. Pode significar começo, principio, início. A ênfase aqui pode ser uma referência à pré-existência de Cristo e ao caráter absoluto de sua divindade. Todavia, é bem mais provável que o autor esteja se referido a mensagem do evangelho que se concentra no conteúdo central – Cristo Jesus o redentor da humanidade.

A expressão “o que era” no grego pode ser traduzido por “aquilo” o termo é “mais amplo do quem,pois, inclui a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo”.

Mas, o grande dilema entre os exegetas está no uso da expressão “Com respeito ao Verbo da Vida” que no grego é “peri tou lógou tês zoês” . A questão pode ser colocada da seguinte forma: Será que o termo “ tou lógou” é uma referência a Cristo ou a mensagem do Evangelho? E o termo “peri” está ou não qualificando os termos anteriormente estabelecidos (olhos, ouvidos, mãos)? O debate gira em torno destes termos.

Concernente que na primeira questão nós defendemos que o termo “tou lógou” é uma referência ao evangelho de Cristo que no tempo teve a sua manifestação histórica na Pessoa do Redentor, e isto , por meio, da encarnação. Isso é possivelmente defensível pelo fato de que o termo “lógos” é uma evolução lingüística do radical “leg” de onde vem o verbo “legô” e significa “dizer”, mas não é um jogar de palavras “ tem o sentido de coletar as melhores palavras para ser proferidas” o termo “lógos” deriva desta construção gramatical, e indica que Cristo tem sido o melhor discurso de Deus ao homem.

Este texto que temos diante de nós nos apresenta as verdadeiras características da mensagem do evangelho de Cristo. João sumariza tudo isso de forma muito clara nesta pericope. E de que forma podemos perceber isso?



I – A MENSAGEM DO EVANGELHO FUNDAMENTA-SE NO TESTEMUNHO OCULAR DOS APÓSTOLOS.



A primeira questão é que a mensagem do evangelho está fundamentada no testemunho ocular dos primeiros apóstolos. Isso é percebido pelo uso que João faz de alguns verbos nesta passagem. Ele diz “O que temos ouvido” isto é uma referência a proclamação do evangelho trazida por Cristo. O verbo que é usado aqui é “akekoamen” está no perfeito, e este tempo verbal descreve a idéia de uma ação progressiva. Ou como coloca Swetnan: No modo indicativo, o tempo perfeito é normalmente combinado com outros elementos no contexto, incluindo o significado do próprio verbo , para indicar a continuidade, resultado presente de uma ação anterior.

Esta é uma definição bastante clara do tempo perfeito no grego, todavia, tal simplicidade não deve ser usada para se ignorar este tempo, pois, Moulton indica que “o tempo perfeito é o mais importante exegeticamente entre todos os tempos gregos”. Isso é percebido nas construções gramaticas neste tempo usadas nesta epístola. É usado de forma deliberada por um autor, isto implica na singularidade deste tempo verbal.

O outro vocábulo grego que temos usado aqui é “heorakamen” – “o que temos visto” é um verbo que está no perfeito do indicativo da voz ativa, e o aspecto verbal usado aqui indica que foi feita uma revelação em termos que os homens podiam compreender e os resultados desta revelação tem efeito permanente na vida. O uso do plural aqui indica o autor desta epístola e os demais apóstolos. O uso do tempo perfeito aponta, também, para a possessão da mensagem a ser proferida.

Mas, eles não apenas viram; pois, o texto nos informa que eles “contemplaram” no grego a palavra é “etheasámetha” aqui o verbo é um “aoristo” do indicativo médio.Isso quer dizer que foi algo que aconteceu no passado, e, aponta para os dias que ele esteve com Cristo – que é o verbo da vida - ele não apenas viu a manifestação histórica do Verbo neste mundo, mas ele fixou sua atenção a tudo que o Logos de Deus fez e ensinou neste mundo. O verbo aqui indica que havia uma consideração deveras solene e profunda para com a Pessoa de Cristo como o verbo de Deus. Este olhar distingue-se dos demais: é uma contemplação intencional.

Mas, as evidências não estavam apenas no campo da contemplação visual, mas também, encontrava-se no campo vivencial e empirista. Ele diz que as suas “mãos apalparam o verbo da vida”. As evidências vão tomando formas singulares. O empirismo teológico do apóstolo fundametam sua mensagem e autoridade. O verbo da vida pode ser tocado e sentido – indicando que não era um fantasma - isso era uma credencial apostólica ser uma testemunha ocular de tudo o que Cristo realizou. Mas será que tal argumento fundamenta-se? Há certa autoridade para isso, é quando o lado de Jesus é ferido depois de sua morte (João 19.35): “aquele que isto viu, testificou” ( Este é um testemunho ocular).

O verbo grego usado para “apalpar” é “epsêláphêsan” é um verbo que está no aoristo do indicativo – de fato nós apalpamos – na voz passiva. Este termo tem o sentido de um cego no escuro procurando por luz e a encontrou, pois,o aoristo pode oferecer o sentido de finalização desta procura. Todavia, o sentido aqui é de examinar de perto como sendo uma evidência cabal de que o Eterno penetrou na história dos homens.

Esta experiência apostólica o qualifica como testemunha do evangelho.Como “ministro das insondáveis riquezas de Cristo” não era um diploma do colégio apostólico que o qualificava como proclamador do evangelho, mas a experiência com o Logos encarnado. Os pregadores itinerantes que não tinham essa visão do lógos não eram nem sequer autorizados como autênticos pregadores do evangelho que gera vida; e nem muito menos eram apóstolos que foram chamados para anunciar o verbo da Vida.

O próprio João “reclinava-se sobre o peito de Cristo” , e isso, o autoriza dizer que suas mãos apalparam o verbo da vida. A verdade do apostolado de João estava fincada em fortes bases – pois, a sua convivência com o Lógos silenciava toda e qualquer heresia gnóstica. Outra realidade é que esta evidência qualificava alguém para exercer o apostolado, a certeza de que alguém. Isso pode ser visto em textos como Atos 2.21-26; e, também, em 2 Coríntios 12.11-13. Uma vez que nenhum moderno apóstolo hoje tem essas credencias podem ser chamados de falsos apóstolos, isso no sentido estrito da Palavra.



II – A VERDADEIRA MENSAGEM DO EVANGELHO TESTIFICA DA ENCARNAÇÃO DO VERBO.



A segunda característica que João nos apresenta no seu texto sobre , a verdaeira mensagem do evangelho é que ela “Anuncia e testifica da Encarnação do Verbo”.O apóstolo não para em afirmar o seu testemunho ocular dos fatos, mas nos indica que este vivenciar com cristo tem um objetivo de proclamar os eventos históricos da encarnação. Ele diz que a “Palavra da vida se manifestou”! A palavra não ficou na eternidade ela tomou uma forma – o discurso de Deus se humanizou! Deus verbalizou sua verdade na encarnação de Cristo. Isso é notório pelo uso do verbo “efanerothê” que é um indicativo aoristo na voz passiva que indica tornar claro, tornar evidente, manifestar. O discurso de Deus no A.T era por meio tipos e símbolos, mas no N.T é por meio da encarnação do seu Filho, pois, o verbo grego “indica a encarnação” .

A manifestação de Cristo no V.T , por meio dos tipos e símbolos, era imperfeita, todavia suficiente aos crentes daquele tempo, todavia, na encarnação de Cristo Deus tabernáculou entre nós (Jo.1.14) de forma perfeita e plena, Deus se revela redentor,por meio do “Verbo da vida” no grego“logou tês zoês” aqui o gentivo pode ser tomado de três formas básicas: 1) pode indicar o conteúdo da Palavra – a Vida que é Cristo, é uma proclamação de sua obra e de sua pessoa; 2) pode indicar a qualidade – palavra viva; 3) ou pode indicar o objeto – o verbo que dá vida.

João testifica do Verbo encarnado quando ele diz “testemunhamos”. O verbo grego aqui “martyroumen”, segundo Stott, é usado para indicar a “autoridade da experiência apostólica” está no tempo presente, exigindo assim uma ação contínua, significa que o testemunho ocular de João não deveria ser monopolizado por ele e pelos demais apóstolos, mas que deveria ser anunciado constantemente. Esse testemunho dá força para uma anunciação singular, o apóstolo, usa o verbo “apangellomen” este verbo é usado no grego para descrever a idéia de reportar, declarar. Aqui o sentido é de indicar “a fonte da qual procede a mensagem” as duas palavras “martyroumen e apangellomen” enfatizam que a mensagem tem fundamento no testemunho ocular de João. Ele como testemunha ocular dos fatos ocorridos é autorizado a testificar da encarnação de Cristo. Aquele verbo que fora tocado pelo apóstolo era o fundamento de sua proclamação.

O versículo 2 é uma espécie de parênteses no qual o autor nos indica que a vida foi revelada por Deus na pessoa de Cristo. A proclamação da encarnação de Cristo não gera um mero intelectualismo, pois, a função desta proclamação é apresentar “a vida eterna” que estava com “Deus Pai” (ten zoen ten aionion hetis en pros ton patera), isso é bastante singular. A vida eterna que possuirmos só encontra realidade em nós por causa da encarnação de Cristo. Ele é a Vida Eterna que estava com o Pai e foi manifestada a nós pecadores.



III – A VERDADEIRA MENSAGEM DO EVANGELHO TEM DOIS OBJETIVOS ESPECÍFICOS: PROMOVER COMUNHÃO E ALEGRIA.



A terceira característica da mensagem do evangelho é que ela apresenta o duplo propósito da doutrina da encarnação: “Promover comunhão e alegria plena”.

As igrejas estavam vivendo em profunda desarmonia por causa das heresias que estavam presentes naquele tempo, e os pregadores intinerantes se advogavam como apóstolos, mas aqui João nos diz que o autentico apóstolo proclama a encarnação para “que mantenhais comunhão conosco...”

No grego a palavra “comunhão” é “koinonian” indica “o afastamento dos interesses particulares e a união com outras pessoas para o cumprimento de alvos comuns” .Como podemos saber que isso é expressamente o objetivo da proclamação de João? Podemos perceber pelo uso que ele faz do subjuntivo do verbo “echête”, o modo subjuntivo em grego tem o objetivo de indicar finalidade, e está no tempo presente, aqui João está dizendo que não é apenas para se “ter” comunhão, mas para continuar tendo – sempre tendo comunhão – talvez o uso do tempo presente esclareça adequadamente o fato de João incluir nesta comunhão a Pessoa de Deus Pai e de Deus Filho. “Ora a nossa Comunhão é com o Pai e com seu Filho”.

Isso nos lembra que a comunhão não é apenas horizontal, mas antes é vertical. A verdadeira doutrina da encarnação nos leva a ter não só comunhão uns com os outros, mas também com as três pessoas da Trindade. João não menciona o Espírito Santo aqui, isso porque (como é lógico), somente o Espírito Santo é capaz de promover essa comunhão, e sabemos que este Espírito Santo habita em nós e nos capacita a essa comunhão.

Aqui também é-nos indicado que a comunhão “com o Pai e com seu Filho” aponta para a nossa Salvação que encontramos em Cristo por meio da ação soberana do Espírito Santo, somos membros de Cristo e temos comunhão com Deus.

O segundo propósito da proclamação ou mesmo do registro da encarnação “Estas coisas, pois, vos escrevemos...” tem a finalidade de produzir algo deveras importante “alegria completa”.

Qual é a idéia aqui? A idéia é de plena satisfação. João, ao usar o verbo grego “peplêromenê”, está nos dizendo que e encarnação produz plena satisfação à igreja continuamente, pois, o tempo presente do verbo nos indica isso.

Wallace nos diz que há certa dificuldade com a expressão “nossa alegria”, aqui o “nós” é inclusivo ou exclusivo? Coloquemos a questão conforme formulou Wallace:

O propósito da carta é: que o autor tenha alegria ou que o autor e os ouvintes experimentam alegria? Um complicador da questão é o testemunho dos MS (manuscritos): algumas testemunhas têm “hemôn” (e.g., a B L Y 1241) enquanto que outros têm “hymôn” (e.g., A C K P 33 1739). A questão é muito difícil para fecharmo-la. Contudo, pelo menos, o pronome na segunda pessoa sugere implicitamente que os escribas viram os ouvintes como participantes do propósito alegre da epístola.



A resposta a esse dilema é que o apóstolo usa o pronome de forma inclusiva - e ele e os demais apóstolos tinham como objetivo, através da proclamação do evangelho, promover uma plena alegria na vida da Igreja.

A ênfase de João está no fato de que a encarnação completa a nossa alegria. Mas também garante a suficiência da mensagem cristã. Nada lhe falta. A mensagem cristã tem tudo. O verbo está no particípio perfeito indicando que uma ação foi realizada no passado, mas que os seus resultados são duradouros. Tudo está completado, a igreja não precisa de experiências místicas, não carece do conhecimento avançado do gnosticismo ou da ilusão dos docetas para continuar existindo, essas coisas não comunicam a autêntica alegria. Mas a alegria da igreja está fundamentada na mensagem da encarnação do Verbo que comunica vida aos homens. Esse era o desejo latente do coração do apóstolo João. Ao usar o subjuntivo associado a um verbo num particípio perfeito indica que há um desejo para que aquela alegria primeva continue abundantemente na vida dos que conhecem a mensagem do verbo da vida.

CONCLUSÃO:

Diante do que vimos podemos dizer que o apóstolo João ao escrever esta carta tinha como objetivo. Edificar os crentes na verdadeira fé a respeito da encarnação. E o caminho que ele faz isso é mostrando que características cabia para a verdadeira mensagem do evangelho. Aprendemos com o apóstolo que o ministério de pregação da verdade não pode estar baseado em sintomáticas emergenciais, mas deve estar alicerçado sobre o mais sólido fundamento; o testemunho singular da encarnação de Cristo. Onde é possível perceber e contemplar o eterno em termos tangíveis. Aqui entendemos que muito mais que anunciar a Cristo é preciso crer nele como o Deus vindo ao mundo que se tornou servo para redimir pecadores; algumas coisas são pertinentes aqui, a primeira consiste em rejeitar aquela idéia de que a doutrina divide a igreja; a verdade demonstrada por João é contrária a tal pensamento – a doutrina (a verdadeira doutrina) promove comunhão dentro da igreja de Cristo. Esta conclusão é inevitável quando lemos este trecho das Escrituras Sagradas.

A outra verdade que aprendemos é que a mesma doutrina deve gerar alegria aos crentes, a verdade deve fazer brotar no peito a semente da alegria cristã. Uma alegria completa que não precise de algo mais, não precise de misticismo ou emocionalismo barato, pois, na encarnação temos o que é necessário para a vida cristã e para uma vida pura em Deus – temos Deus dando-se a si mesmo aos pecadores. Temos o eterno no tempo; o humano no divino; o Criador vivendo com as sua criação. E, estas verdades conferem a suficiência plausível à mensagem cristã. Aqui temos a razão da existência do nosso ministério, e o resumo de toda a nossa pregação - Cristo é Deus Encarnado!

Esta não é uma verdade sem conteúdo. Também não é um ensino para o alimento intelectual de alguns crentes, mas é um ensino para promover a comunhão dentro da igreja de Cristo, é um ensino para trazer alegria ao coração do aflito, que ao saber que um Deus nos céus se importa com ele o seu coração se enche de alegria singular; e mergulha em uma gratidão solene ao Cristo da Cruz por tão sublime amor. A outra verdade aprendida aqui é que é possível ao pastor ter esperança no futuro, pois, a sua mensagem é divina – e nunca humana – isto porque se o ministério pastoral centralizar-se em ensinar apenas Cristo aos pecadores, ele (o pastor) nunca falhará ou fracassará em sua mensagem. Isto nos confere conforto ao coração, pois, temos uma mensagem que foi idealizada por Deus na eternidade e tudo que temos que fazer é transmiti-la com reverência e temor.



































REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.



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12. KAISER JR., Walter & SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2002

13. KISTEMAKER, Simon.Comentário do Novo Testamento – Tiago e Epístolas de João. São Paulo: Ed. Cultura Cristã,2006.

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15. OSBORNE, Grant. O.A Espiral Hermenêutica – Uma nova abordagem à Interpretação Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.

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sábado, 29 de maio de 2010

ENTENDENDO A CONFISSÃO DE WESTMINSTER - DISCIPULADO 1

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER.


DEPARTAMENTO: Escola Bíblica Dominical.

Aluno:___________________________________________________________________

Professor: João Ricardo Ferreira de França(3475-7544 ou jrcalvino9@yahoo.com.br e jrcalvino9@hotmail.com ).

ASSUNTO: Capítulo 2 – de Deus e da Trindade .

SEÇÃO ESTUDADA: Primeira.

INTRODUÇÃO: O nosso estudo tem como objetivo estudar o ser de Deus conforme Ele se revela nas Escrituras. Deus não é provado pelas Escrituras, pois, a Bíblia só pensa em nos dá de imediato a existência de Deus. “No princípio Deus...” esta é uma verdade clara em tudo. Este capítulo de nossa Confissão de Fé trata da Teontologia (Estudo do ser de Deus), e pode ser reconhecido como o capítulo confessional que trata especificamente da teologia do ser de Deus. Nesta aula vamos estudar dois grande e fundamentais conceitos a respeito do assunto: Os atributos incomunicáveis e comunicáveis de Deus.



I – ATRIBUTOS INCOMUNICÁVEIS DE DEUS.

Definição: Podemos dizer que são os atributos que Deus não comunica ao homem, pois, estes atributos encontram-se somente em Deus.

Diante disso desejamos apresentar aos irmãos alguns destes atributos conforme têm sido apresentados na Confissão de Fé de Westminster.

A unidade de Deus: Antes de considerarmos apropriadamente este assunto, se faz necessário considerar a unidade Deus. Nós presbiterianos acreditamos que há um só Deus, e este é “Vivo e Verdadeiro”.

O texto de Deuteronômio 6.4 nos mostra essa realidade. O termo “único” ocorre no texto para apontar uma “Unidade” não Absoluta, mas para uma “Unidade composta”, ou seja, Deus é um, mas nele há uma certa pluralidade que o judeu não podia explicar. Este é o indicio da doutrina da Trindade que consideraremos depois.

1. Deus é Infinito em Perfeição: Deus tem sido caracterizado na Bíblia como um ser infinito. Em profunda perfeição a infinitude de Deus descreve que ele não tem fim, sempre continuará existindo, isto descreve que ele é isento de qualquer limitação, descreve que ele está ausente de qualquer erro em seu ser, e assim, descreve sua perfeição. Veja-se Jó 11.7-10; Salmos 145.3; Mt.5.48.

2. Deus é Imutável: Outro atributo de Deus que é incomunicável ao homem é chamado de imutabilidade, a imutabilidade de Deus significa que Ele é sempre o mesmo em Seu ser, Ele não muda em sua natureza ontológica. O texto de Tiago.1.17 nos informa isso. Três coisas podem ser analisadas aqui:

A) Tudo o que é bom vem de Deus.

B) Que de Deus as trevas não vem.

C) Que Deus não pode mudar.

3. Deus é Eterno: A sua eternidade não pode ser enumerada, somente ele é o ETERNO POR MAGNIFICIENCIA. A eternidade de nossa alma está ligada à criação de Deus.O SENHOR criou o homem para ser eterno, mas a eternidade de Deus é dEle somente.

4.Onipotência: Creio “em Deus Pai, Todo-Poderoso” esta é a confissão da igreja. O atributo de onipotência cabe somente em Deus que criou o mundo e tudo o que nele existe, ter todo poder significa que Deus pode fazer tudo o que lhe apraz para glorificar o seu próprio nome. Jó 37.23.

5. Onisciente: Deus conhece todas as coisas em sua totalidade, esse conhecimento não é adquirido, mas é inato em seu ser, Deus não aprende as coisas como acontece conosco, mas ele sabe tudo – alguns chamam isso de conhecimento exaustivo e simultâneo de Deus. Dentro deste atributo podemos incluir a presciência que é fruto deste conhecimento exaustivo de Deus.Romanos 11.34 e 1 Pedro 1.1-2.

6. Onipresença: O Criador está em todos os lugares e não está limitado a estes lugares. É isto que quer dizer “Onipresença”. Dentro deste atributo encontramos apoio para duas verdades teológicas que são: 1) que Deus é Imanente – está na Criação, mas não é a Criação; 2) que Deus é transcendente – que está ausente na Criação, mas não abandona a Criação e não se funde ou confunde-se com ela.(Salmos 139.7-10)

II – ATRIBUTOS COMUNICAVEIS: A definição destes é que os mesmos são atributos que encontramos em Deus e no homem, no Criador os encontramos com grande elevação e nos homens com imperfeição. Desejo mencionar apenas três destes atributos.

1.Santidade: A Bíblia descreve Deus como Santo, o homem também, quando encontrado pela Graça de Deus, é descrito como tal. Is.6.3; 1 Co.1.1-2.

2.Amor: Deus é Compreendido como sendo amor 1Jo.4.8,10

3.Justo: O Deus da Bíblia é apresentado como sendo justo. Naum 1.2,3

III – DEUS É AUTO-SUFICIENTE: Deus não se auto-criou. Ele sempre existiu. Ele não precisa das suas criaturas para continuar existindo. Por quê?

1)Porque é a origem de todas as coisas: A Bíblia declara isso de forma clara (Sl 104; Amós 4.13; Cl .1.16,17).

2) Porque somente ele deve ser merecedor de glórias e honras: Veja-se Rm.11.36; Ap.4.11.Isso deve gerar em nós humildade diante de Deus pós nós precisamos dele.At.17.22-28

questionário.

l) O que são os atributos de Deus? E quais são?

2) O Deus da Bíblia precisa de alguém? Explique.

3) Qual é a atitude que devemos assumir diante da auto-suficiência de Deus?

4)Fale sobre o que entende-se dos atributos comunicáveis de Deus?

5) A imanência e a transcendência são verdades de que Atributo de Deus?

6) O que significa Presciência em 1 Pedro 1.1-2?.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Visão Reformada dos Primeiros Capítulos de Gênesis.

Introdução:

O que há de tão especial neste assunto? O que este assunto significa para a igreja em nossos dias? È difícil para a teologia moderna considerar este assunto. Deixe-me sugerir porque penso que este assunto é realmente importante para nós hoje.

Primeiro porque tenho percebido que a nossa geração de teólogos modernos não se preocupa com o Antigo Testamento e conseqüentemente não refletem sobre este tema. Estamos ainda vivendo um período de incertezas quanto aos relatos do Gênesis.

A segunda razão é que a ciência e a teologia parecem ainda estar em conflitos permanentes, embora, considere que são alguns homens de ciências que estão em conflito com a Bíblia.

A terceira razão para este estudo é o fato de que os liberais ainda continuam exercendo certa dose de influência em muitos círculos acadêmicos de nossa época. Percebo isso pelo amplo acervo de livros de cunho liberal sendo publicados nestes últimos anos. E muitos estudantes de teologia conseguem absorver esse erro mais fácil que a própria verdade, isso é compreensível, pois, é mais uma prova de que a depravação total é uma doutrina eminentemente bíblica.

A quarta razão para a existência deste estudo está no fato de que os primeiros capítulos do Gênesis são vistos como sendo uma visão mítica do povo judeu. Nada do que está registrado nestes capítulos, segundo os eruditos pós-modernos, devem ser vistos como uma narrativa histórica e verdadeira, pois, segundo eles, são apenas mitos antigos.

Por que estudar isso? A minha última resposta seria que os primeiros capítulos do Gênesis são toda a base de uma teologia sadia. Só se pode teologar tendo como base estes primeiros capítulos do Gênesis. Este estudo é uma brevíssima introdução a este assunto tão cativante; e, por falta de espaço não vamos abordar tudo o que se conhece sobre isso, o meu desejo é que Deus use este estudo para que muitos possam apegar-se ao Antigo Testamento com afinco e vê-lo como Palavra Infalível e Inerrante Revelada por Deus.


I – A BASE DA REVELAÇÃO DE DEUS ESTÁ NOS PRIMEIROS CAPÍTULOS DO GÊNESIS.


Precisamos levar em consideração tal assunto a respeito dos primeiros capítulos do Gênesis, isto porque toda a lei, é, em última instância a base da revelação de Deus. Há uma consideração peculiar que necessitamos fazer sobre este assunto. Quando olhamos para a figura da pirâmide acima vemos que a Lei está na base. E ao estar nesta posição não significa que ela seja inferior, mas significa que ela é essencial é necessária.

Vivemos em uma época em que o dispensacionalismo tem deflagrado uma guerra contra a Lei de Deus, e muitos evangélicos têm abraçado esta concepção. E talvez não considerem este assunto edificante e importante para a igreja moderna.

A questão que levantamos é a seguinte se a Lei é a base de toda a revelação de Deus, e se há algo nesta Lei que não é verdadeiro ou atual, então toda a revelação de Deus está condenada. Então, a Bíblia não pode ser confiável. Note bem, se dissermos que há certas partes na Bíblia que não é verdade, então não temos uma Bíblia – temos um livro qualquer sem nenhum valor.

Os eruditos do liberalismo teológico acham que devem interpretar a Bíblia conforme as suas regras racionalistas, e pensam que devem conformar a Bíblia aos seus padrões puramente humanos.

Como devemos encarar os registros de Gênesis? Os liberais insistem em dizer que os relatos são puramente mitos antigos. Alguém pode dizer como? Será isso possível? A nossa resposta é um ressonante Não.

A Lei é a base de tudo . Por quê? Porque na concepção Reformada existe um progresso na revelação de Deus, e, este progresso tem como finalidade alcançar um clímax singular que é a Plena revelação de Cristo Jesus.

Dentro do processo revelacional podemos perceber que Deus vem se revelando ao longo da história como redentor de seu povo e que tem uma mensagem específica para o seu povo. Este processo pode ser visto da seguinte maneira:





LEI ---------- ESCRITOS --------- PROFETAS------ NOVO TESTAMENTO



Vemos assim um progresso onde o Novo Testamento é o clímax de toda a revelação de Deus a que nasce em Gênesis. A lei é a base para o Novo Testamento. É exatamente isso que Cristo nos diz em Mateus 5.43-44. O ensino sobre o amor ao próximo não algo exclusivo do Novo Testamento, como alguns têm pensado, e nem é fruto do ensino de Cristo somente, mas este ensino encontra a sua raiz no Pentateuco no livro de Levítico 19.18.

Diante disso surge-nos uma outra questão: Quem deve interpretar o Antigo Testamento? Os liberais? Os conservadores? Os neo-ortodoxos? A resposta para isso é que a verdadeira e correta interpretação do Antigo Testamento é o Novo Testamento. O principio reformado de interpretação é “a Escritura interpreta a própria Escritura”. Vejamos alguns exemplos:

Gênesis 12.1-3--------------Gálatas 3.5-8.



Romanos 1.16-17----------Habacuque 2.4; Gênesis 15.6.



Essa deve ser a nossa regra de hermenêutica com relação aos primeiros capítulos de Gênesis como de toda a Bíblia. No Gênesis temos todas as verdades de Deus concernentes a salvação dos homens pecadores. Se tudo começa lá como podemos negar a veracidade do que ali está registrado?

II – O REGISTRO DA LEI É CONFESSIONAL OU REVELACIONAL?

Alguns eruditos modernos declaram que o “Gênesis é um livro confessional, mas não é um livro que expõe a realidade”. O que isso significa? O que se deve entender por revelação confessional? É aquela compreensão de que os primeiro relatos do livro do Gênesis é mais uma forma com a qual o homem decidiu contar as origens de todas as coisas.Como os babilônios tinham a sua cosmologia (sua visão de como o mundo foi criado), como os egípcios, os gregos com os seus mitos; do mesmo modo, os judeus decidiram contar como ele vêem a criação , de sorte que o muito do que está registrado no Gênesis – principalmente o relato de Gênesis 1 - tem um forte paralelo com os mitos babilônicos e isso significa que os judeus adaptaram esses mitos (que supostamente são mais antigos que os relatos bíblicos do Gênesis), e assim, a sua crença de como o mundo foi criado.

Qual é a implicação disso? Isso significa que os registro do Gênesis não são o que de fato de Deus revelou, mas são crenças peculiares de um povo. Todavia, o entendimento reformado sobre essa questão é que os atos registrados em todo o Antigo Testamento são revelacionais em sua composição. O simples ato da criação é revelacional: Veja Romanos 1.18-20.

Todos os atributos apontam para a manifestação do caráter do criador. Quando se fala do “poder de Deus” aqui se testifica que apenas um ser poderoso poderia criar o mundo como o concebemos.

E o termo “sua divindade” é usado no texto para indicar a natureza divina, pois, o termo grego “theiotes” aponta para a revelação do próprio ser de Deus. Esta linguagem paulina encontra apoio no texto de Salmos 19.1-4.

O que faz os céus? “proclamam a glória de Deus”, o verbo proclamar no hebraico é “mesaperim” este verbo tem o sentido de “narrar”, “contar com exatidão”, “revelar”, “pregar”, “ser selecionado e destinado para contar algo”. A criação é o canal no qual Deus se apresenta diante dos homens como sendo o criador de tudo o que existe. Neste sentido podemos dizer, sem sombra de dúvida, que a criação é puramente revelacional. Ela não está vinculada a uma crença peculiar do judaísmo sobre a origem de todas as coisas. Antes de tudo é a própria revelação de Deus.

Por que é importante refletirmos sobre isso? É porque toda a nossa teologia depende de como nós encaramos os primeiros registros de Gênesis. Uma teologia que não leva em consideração a historicidade dos registros de Gênesis não deve ser chamada adequadamente de teologia.

III – CONSIDERANDO ALGUMAS PASSAGENS NO GÊNESIS.
Estudando o livro do Gênesis percebemos grandes verdades que estão contidas ali. Nos mitos babilônios e egípcios temos uma criação realizada ou feita sem algum propósito, a criação do mundo é resultado de intrigas entres os seres divinizados.

Mas no relato do Gênesis há uma harmonia entre as Pessoas da Trindade que decidiram criar o mundo. No primeiro capítulo temos Deus criando tudo para ser habitado. Veja abaixo:


Os filhos que o homem deve trazer a existência, por meio da geração, devem adorar a Deus. A terra deve ser povoada por uma geração santa que viverá para a glória de Deus. A criação, como um todo, deve glorificar a Deus.



Mas há algo fundamental em Gênesis 1 é o fato de que a criação aos olhos do Criador é muito boa. Nada é imperfeito. Tudo tem o seu lugar no mundo criado por Deus. Há uma ordem no cosmos. Essa exatidão do registro bíblico incomoda alguns homens de ciências. Incomoda particularmente os evolucionistas, pois, eles alegam que tudo no início era um caos e ficou tudo em ordem, e não o contrário. Eles não aceitam o relato de Gênesis porque tal relato contradiz a “teoria da evolução”, o texto do Gênesis revela a impotência e a fragilidade da evolução. Pois, neste mesmo livro vemos a degeneração do homem, ou seja, a ordem tornando-se desordem, é um conceito contrário ao da evolução. Isto significa que o simples não gera o complexo. Tudo foi criado na mais perfeita harmonia., mas o homem pecou contra Deus e trouxe a desordem sobre o universo.



Outra verdade que precisamos considerar no relato de Gênesis é o fato de que há três mandados divinos para a criatura que fizera. Estes mandados perduram até o dia de hoje e isto significa que tais capítulos são narrativas históricas e verdadeiras. Quais são estes mandados? Vejamos:







1 – O Mandado Cultural: Se fizermos uma comparação entre Gênesis 2.15 e 1.26,28 perceberemos no que consiste este mandato. A base da cultura estava ali presente, ou seja, tudo o que uma cultura precisa para existir está presente aqui:



a) O Trabalho: “Adão deveria cultivar o jardim”.Isto nos ensina que o trabalho não um resultado da queda como muitos têm pregado e ensinado em nossos dias; comer com o suor do teu rosto mostra que o trabalho depois da queda tornou-se algo fatigante, duro e espinhoso. O trabalho é um mandado de Deus ao homem.



b) O exercício do Governo: O homem reflete a imagem de Deus na criação, e tem sido considerado como vice-regente do mundo. A posição real de Adão neste mundo aponta para o princípio do governo, a idéia de domínio aqui não é de exploração, mas aqui está implícito o princípio da mordomia. Governar não é pecaminoso, mas é honroso – Deus criou Adão com o propósito deste governar o mundo.



2- O Mandado Social: Agora chamamos a atenção do leitor para Gênesis 2.21-24 é aqui onde temos o nascedouro da sociedade. Temos a estrutura familiar estabelecida. A família é ordenada em termos de um desapegar-se e unir-se a outrem. Note como Gênesis coloca as coisas:

a) A criação da mulher tem como objetivo evitar a solidão de Adão.

O princípio extraído aqui é que o homem não é uma ilha, isolada, sozinha sem relação com outros. O companheirismo é algo que Deus prima em sua criação – o casamento não deve ser uma prisão para os solteiros, mas a liberdade da amizade e cumplicidade matrimonial.

b) Que esta relação é heterossexual.

Aqui tem sido condenado o homossexualismo de forma muito clara. Adão se une a sua mulher. E não a outro homem, nem mesmo uma mulher se une a outra. Mas o que está escrito é que “macho e fêmea”.



c) É uma relação monogâmica.



Não temos aqui nenhuma indicação de que o homem deveria ter mais de uma esposa, e nem a mulher mais de um esposo. Não há espaço para a poligamia. Deus dá um extremo valor para com a família. E com isso está nos dizendo que a sociedade deve valorizá-la porque somente assim a sociedade pode ser sólida neste mundo.



3 – O Mandado Espiritual: Vamos considerar Gênesis 2.16-17. Aqui somos introduzidos ao conceito de relação entre o homem e Deus por meio de um pacto .Deus é visto como sendo o Soberano (como de fato Ele o é) que exige do homem uma observância das estipulações pactuais. Vejamos o que está envolvido neste mandado espiritual:

a) A comunicação: Adão falava com Deus (Gn 3.8-10). Havia uma comunicação entre a criatura com o Criador. A própria ordem de Deus para não comer da árvore aponta para esta comunicação.

b) A Obediência a uma ordem: Em Gênesis 2.16 tem a expressão “deu esta ordem” exige de Adão uma obediência e uma conformidade para com a Lei de Deus expressa no pacto. O pacto envolvia vida e morte. O certamente “morrerás” no versículo seguinte indica que a vida e morte se relacionavam com o pacto. Por isso, exigia-se da parte que estava pactuando com Deus (no caso Adão) uma obediência inteira, exata e perpetua.



c) Adoração: O mandado espiritual envolve a questão da adoração oferecida ao criador. No inicio de tudo já podemos dizer isso. Em Gênesis 2.1-3 indica que Deus cria o sábado para ser o dia de adoração, este sábado é um memorial da criação de Deus. O sábado é instituído como dia de culto onde Adão e sua família deveria se deleitar.

Isto pode ser demonstrado pelo uso da anologia da fé. Em Êxodo 20.8-11 temos a expressão “Lembra-te”. Do quê? Do dia de sábado para o santificar, o uso do verbo “lembrar” aqui nos reporta para Gênesis 2.1-3. Isso porque o sétimo dia da semana está vinculado aos seis dias da criação, logo, Adão adorava no mesmo dia que o povo da aliança – no sábado do Senhor. Mas por que dizemos isso? Porque Hebreus 4.10 nos indica isso de forma muito clara. A interpretação pode ser a seguinte:



É necessário notar que todos os mandados foram dados antes da queda de Adão e Eva no pecado. Isto nos diz que eles são permanentes até o dia de hoje e não podem ser negligenciados.

Consideremos agora de forma rápida Gênesis capítulo 3. A questão fundamental a ser tratada é se a serpente é literal ou não. Como interpretar este capítulo? Três propostas são oferecidas:

1) Simbolicamente.

2) Literalmente.

3) Alegoricamente.



Estas são três correntes de interpretação mais usadas em nossos dias. Como interpretar? Se adotarmos o princípio do simbolismo, iremos cair no erro de que o texto do Gênesis é confessional – como já vimos acima o texto não pode ser confessional. Se adotarmos o princípio alegórico, vamos transformar os relatos de Gênesis em puros mitos ou sagas, e assim, teremos umas estórias sem significados. Portanto, nosso entendimento é que a melhor forma de interpretar este capítulo é literalmente. Este capítulo pode ser dividido em três seções básicas para um entendimento geral:



A) O JUÍZO NO ÉDEN: O pecado de Adão e Eva tenta ocultar os atributos de Deus que a própria criação revela. Adão deseja ser igual a Deus(vs.5). Vejamos o resultado disso tudo:

1) A expulsão do Jardim vs.23

2) A separação do seu Criador vs.9-11

3) A serpente é culpada vs 14

4) A derrota certa de Satanás vs.15



B) A MISERICÓRDIA DE DEUS NO ÉDEN:



O que era para acontecer com Adão e sua esposa? Adão deveria ser fulminado no momento em que pecou, deveria ser morto. Pois, ele pecou contra o Deus Supremo.

1. Deus poderia ter feito com que Eva ficasse estéril, mas disse que Ela teria filhos só que com muitas dores. O ter filhos era um sinal de que haveria esperança de restauração (vs.16)

2. O homem e o trabalho tinham uma relação de dureza agora vs 17-19, Deus poderia ter tirado os meios com os quais Adão pudesse extrair o seu pão, mas Deus que é rico em misericórdia não o fez.



C) A GRAÇA DE DEUS NO ÉDEN:



Adão foi salvo? Esta pergunta tem sido pertinente a um estudo acurado sobre Gênesis capítulo 3. Olhando para os versículos 14-15 deste texto. O entendimento da Teologia Reformada, por ser uma teologia pactual, é que Adão e Eva foram salvos pela graça de Deus manifestada no Éden; Ele creu no proto-evangelho que lhe foi anunciado por Deus. No versículo 15 Deus anuncia que haverá um grande conflito neste mundo de duas descendências – a descendência de Deus e a descendência do diabo – que nascem de uma única raiz, Eva (mãe de todos os seres viventes).

Deus diz que no meio desse conflito haverá um descendente que irá resolver o problema do pecado na raça humana, haverá um resgatador. A mensagem escatológica deste capítulo é puramente messiânica. No contexto de morte vemos continuamente a vida. Adão contempla, pela fé, o seu redentor – Cristo!

Considere o capítulo 4.1 temos a expressão “com auxilio do SENHOR”. A palavra “auxílio” no hebraico pode ser “yeshu’ar” que significa ‘ajuda’, ‘salvação’, ‘assistência’. Ou poderia ser a palavra “’ezer” que significa “ajudar”, “auxiliar” ou “socorrer”, todavia, no hebraico a palavra “auxílio” não aparece neste texto. Aqui foi mais uma interpretação dos tradutores para oferecer sentido à expressão. A força do hebraico é “adquirir um varão da parte do SENHOR”. Aqui parece indicar que Adão e Eva estavam desejosos pelo redentor prometido. O nascimento de cada filho tornou-se a esperança da vida. “Será que é agora que o redentor há de nos restaurar”, será “agora que ele trará paz ao mundo”? Todas estas indagações estavam centradas em Caim.

Mas, Abel também nasce(vs 2). O texto nos informa a respeito da morte de Abel por parte de Caim. Por que isso? O versículo 8 nos oferece alguma explicação. Neste mundo há duas descendências e Caim pertence ao Maligno (1 Jo 3.8). O conflito no mundo está declarado desde o Éden. Neste mundo existem os que vão crer em Cristo, e os que vão rejeitar a Cristo e se levantarão contra Ele.

No capítulo 5 temos as toledotes de Adão. Os filhos de Adão são contemplados como carregando a imagem de Adão e não a de Deus , isto para denotar a idéia singular da queda. Notamos que Caim não entra na Genealogia. Isso é muito lógico como já explicamos acima. Mas, Abel também não entra. Por quê? A resposta é que Sete é o novo Abel de Adão. A garantida de que a semente santa continuaria existindo neste mundo estava sobre os lombos de Sete.

No capítulo 6 vemos as causas do dilúvio sendo apresentadas. O pecado da raça humana e a degeneração do homem é a temática deste capítulo. Mas a questão é quem são os filhos de Deus no texto?Alguns dizem que se refere aos anjos. Mas o entendimento reformado é que aqui temos uma referência aos filhos de Sete que se relacionaram com mulheres que não pertenciam à aliança de Deus. O curioso neste texto é processo do pecado destes homens, pois, o padrão é o mesmo que o da queda em Gênesis 3, isso nos leva ao início da desordem deste mundo.

1. “vendo” (Gn 6.2; 3.6)

2. “formosas” este termo no hebraico é “Tovoth” que é o mesmo que “bom”(Gn 6.2;3.6)

3. “Tomaram para si” (Gn 6.2; 3.6)

4. “as que lhes agradaram” (Gn.6.2; 3.6. – Agradável aos olhos).



Conclusão: Este breve estudo nos mostrou a importância dos primeiros capítulos do Gênesis para se ter uma teologia sólida e coesa com a fé bíblica. Sem estes capítulos, que devem ser considerados como históricos e fidedignos, não teremos como e porque pregar o evangelho. A base do Novo Testamento tem sido a Thorá de Deus dada ao homem, e uma vez negada a sua legitimidade e autenticidade termos sérias dificuldades em apresentar o evangelho de forma poderosa e eficaz à nossa sociedade.

É nossa convicção particular que o Livro do Gênesis fala de fato das origens de como tudo aconteceu e neste livro encontramos a explicação da queda, a razão da cruz , o propósito do evangelho e a missão da igreja. Tudo está aqui bastar crermos no que nos foi revelado por Deus.








terça-feira, 20 de outubro de 2009

A NOSSA CONFISSÃO DE FÉ


IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL.
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER.
CAPÍTULO 21 – DO CULTO E DO DIA DO SENHOR.
Prof. João Ricardo Ferreira de França.

Seção 6: "Agora, sob o evangelho, nem a oração, nem qualquer outra parte do culto religioso se restringe ou se faz mais aceitável a um certo lugar em que se ofereça ou para o qual se dirija; mas Deus deve ser adorado em todo lugar em espírito e em verdade; tanto em família, diariamente e em secreto, estando cada um sozinho; como também mais solenemente, em assembleias públicas, que não devem ser descuidadas nem voluntariamente negligenciadas ou esquecidas, quando Deus, por meio de sua Palavra ou por sua providência proporcione ocasião.
Ensinos claros desta seção:
Não existe um local sacro para a adoração Pública:
A adoração a Deus envolve a vida.
O culto solene deve ser observado.
Exposição: A nossa aula de hoje visa esclarecer alguns pontos cruciais a respeito do culto cristão, muitos não se percebem a questão da temporalidade e localidade da adoração; o tempo do culto deve ser sempre levado em consideração, por hora não entraremos nesta questão, mas dedicaremos atenção ao segundo aspecto da localidade da adoração. Existe muita falta de compreensão sobre isso, alguns dizem que há um lugar específico – falando de espaço físico – dedicado à adoração; outros, advogam que se a nossa vida é uma adoração, então, devemos fazer tudo o que der na cabeça no culto. Outros, negligenciam o culto solene com a desculpa que podem adorar a Deus em qualquer lugar. Vejamos o que esta seção nos ensina:
I – NÃO EXISTE UM LOCAL SACRO PARA A DORAÇÃO PÚBLICA NA DISPENSAÇÃO DO EVANGELHO.
A CFW nos ensina claramente que na nova administração pactual – chamada de evangelho ou Novo Testamento – nenhuma parte do culto religioso ( os elementos do culto ) não estão limitados ao espaço geográfico. Isto é um contra ponto estabelecido pelos autores da CFW em ralação ao Antigo Testamento ( onde o culto estava restringido ao Templo) que estabelecida a verdadeira adoração no Templo de Jerusalém. Cristo quebra tal concepção quando ensina que adoração não está limitada (João 4.21-24). Três proposições são fundamentais neste texto:
O culto não se limita a espaço físico.
Os verdadeiros adoradores são aqueles que o Pai chama.( em qualquer lugar)
Que o verdadeiro culto transcende porque é espiritual e fundamentado na verdade
II - A ADORAÇÃO A DEUS ENVOLVE A VIDA.
Outro aspecto bastante claro nesta seção e bastante negligenciado em nossos dias é a questão de que o culto envolve a vida; os que são contrários ao "principio regulador do culto" ( que ensina que o que deve ser realizado no culto deve ser ordenado pela palavra [confira o cap. 1 da CFW seção 6,8]. Dizem que tudo na vida é culto (o que nós não negamos) e assim, decidem trazer para o culto solene – a asssembleia pública – aquilo que não é ordenado pela Palavra (corais, coreografia, danças, palmas), isto porque em suas casas eles dançam, batem palmas em suas devocionais religiosas. E se posso adorar a Deus em qualquer lugar, dizem os que são contrários ao principio regulador, não há necessidade de ir ao culto solene!
Alguns aspectos precisam ser esclarecidos aqui. A CFW reconhece que a vida é para a glorificação a Deus, este principio já fora estabelecido na primeira pergunta do Catecismo Maior de Westminster – Qual o fim supremo e principal do homem? Glorificar a Deus e goza-lo plena e eternamente. – então, o ensino aqui deve ser avaliado à luz daquela pergunta. Assim podemos esboçar adequadamente esta questão:
2.1- Deus deve ser adorado em todo lugar: Este é o principio geral que governa as nossas vidas, este deve ser o alvo (propósito) de todo homem conforme aprendemos em Malaquias 1.11 e 1 Timóteo. 2.8 algumas verdades são aprendidas destes dois textos:
A soberania de Deus requer que ele seja objeto de adoração:
E que não importa o lugar onde o homem esteja ele deverá invocar a Deus por meio da oração.
2.2 – Deus deve ser adorado espiritualmente e segundo a sua palavra: Este é o segundo ensino que podemos observa, esta adoração da vida deve também ser espiritual conforme já vimos acima; é um erro pensar que a adoração é mais espiritual quando se está limitado a um local especifico para aquela finalidade, a adoração não está limitada a quatro paredes. Então onde e quando devemos adorar? Esta seção nos diz:
a) em família: O culto familiar tem sido negligenciado em nossos dias, e por isso, temos uma igreja fraca, capenga, se solidez na Palavra – nossos filhos são abandonados espiritualmente falando; nós não nos importamos com a alma deles, então, deixamos que a convivência na Igreja se encarregue de fazer o que é de nossa responsabilidade, o culto familiar consta:
1º de Ensino da Palavra aos nossos filhos – Dt.6.6-7 – note que não se limita ao ensino verbal, mas também ao ensino prático: "andando, na hora de dormir, nas praças"
2º de oração em favor dos filhos – Jó 1.5 – note que o papel do pai é deveras importante na educação do filho – "santificava-os" observe o que Paulo diz em 1 Coríntios 7.14 "os filhos são santos" ou "santificados na representatividade pactual dos pais", por isso, devemos reservar este precioso tempo em família. O casal deve orar juntos em família conforme temos e 1 Ped.3.7
b) diariamente: Todos os dias deve ser visto como um dia de culto a Deus – viver para a sua glória (Mt.6.11- a devoção diária em solicitar o sustento para as nossas vidas é um culto diário a Deus).
c) em secreto: A confissão reconhecer o culto secreto ou adoração particular sozinha. Este aspecto é demonstrado no ensino de Cristo em Mt.6.6; isto não é porque o diabo vai saber ou outra coisa, segundo o contexto da passagem é para que não haja vanglória; um culto deve produzir em nós humildade
III - O CULTO SOLENE DEVE SER OBSERVADO.
A CFW reconhece que a convocação solene deve ser observada. Ele chama-se solene porque nele encontra-se todos os elementos do culto – leitura da Palavra, pregação, oração, salmos de louvor a Deus, sacramentos, e ofertório. Este culto solene não pode ser negligenciado ou voluntariamente esquecido. Por quê?
1. O culto solene envolve uma relação pactual: Este é um ensino claro das Escrituras e o selo pactual do culto é o shabbath – dia do Senhor – o descanso onde o povo da aliança ser reuni diante de Deus (Is.56.6,7)
2. A Negligência ao culto solene revela rebeldia: O ensino claro da Bíblia diz que devemos estar sempre no congregando; isto faz bem à nossa alma e a nossa fé (Hb.10.25).

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Estudo Bíblico e Teológico:
A BÍBLIA COMO O LIVRO DO PACTO DE DEUS.
Prof. João Ricardo Ferreira de França.
jrcalvino9@gmail.com
fones: 3475-7544 / 8684-6461.
Introdução: O estudo da Bíblia exige de nós conhecimento. Um conhecimento do que este livro significa para a Igreja; e, sem este conhecimento não poderemos progredir em nosso entendimento de quem é Deus, nem muito menos compreender os seus atos de salvação neste mundo, por isso, este breve estudo vem a tona para nos ajudar a compreender a Palavra de Deus. pois, há uma necessidade de se compreender a bíblia. Gostaria de focalizar o nosso estudo sob a ótica de que o livro que temos diante de nós é um livro pactual. Onde Deus se revela a nós de forma pura e límpida.
A bíblia é a fonte de toda a nossa teologia e seria imprudente estudarmos qualquer doutrina sem considerarmos a fonte desta doutrina, ou seja, seria insensato não considerarmos a Bíblia como ela de fato é: A revelação de Deus.

I – PONTOS DE VISTAS SOBRE A BÍBLIA.

Ao longo da história da Igreja tem surgido vários pontos de vista a respeito do que seja a Bíblia, e sobre a maneira como ela deve ser lida e interpretada, vejamos estas visões resumidamente:

1.1 – A VISÃO FUNDAMENTALISTA: Esta visão é muito boa, pois, olha para a Bíblia como sendo de fato a Palavra de Deus, todavia, faz uma distinção gritante entre o Antigo e o Novo Testamento, dividindo o povo de Deus; sugerindo que Deus tem dois povos – Israel e a Igreja.
1.2 - VISÃO CRÍTICO-LIBERAL: Esta visão anula toda a idéia que a Bíblia seja a Palavra de Deus, sugerindo que a Bíblia é um livro com muitos mitos, negando os milagres do Antigo Testamento e do Novo Testamentos; resta visão deve ser rejeitada, pois, não se apoia na revelação escrita de Deus.
1.3 – A VISÃO NEO-ORTODOXA OU NEO-EVANGÉLICA: Sustenta que a Bíblia está misturada de verdade e de erros, e que nem tudo que está escrito na Bíblia é verdadeiro, esta é a visão de que a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas que se torna a Palavra de Deus quando é pregada e crida pelo ouvinte. Esta visão também deve ser rejeitada, pois, toda meia-verdade é uma mentira completa.
1.4 – A VISÃO HISTÓRICA-REFORMADA: É a visão de que a Bíblia é a Palavra infalível de Deus toda suficiente para nos conduzir na fé e na conduta Cristã. É esta a convicção que nós abraçamos como Igreja. Podemos dizer que esta é a correta visão que devemos ter da Bíblia. Isso significa que sustentamos que na Bíblia não existe nenhum mito, nenhum erro ou mesmo que ela é incompleta , mas que a Bíblia é um livro verdadeiro em tudo o que afirma. A visão Reformada ou Calvinista pode ser resumida conforme está abaixo:
a. A Bíblia é o registro da revelação das relações pactuais de Deus.
b. A Bíblia apresenta uma só mesagem: unificada, integrada que há de desenvolver-se.
c. A Bíblia como livro pactual nos mostra isso de forma clara.
d. A Bíblia como tal possui qualidades específicas.

II – A NATUREZA PACTUAL DA BÍLIA.
2.1 – O Registro Escrito:
Muitos não compreendem a Bíblia porque não percebem que a Palavra de Deus foi escrita por homens que viveram em culturas e épocas diferentes das nossas. Entretanto, o que os escritores registraram não nasceu da intenção deles, mas foi a mão de Deus quem os conduziu a escrever o que escreveram.
O registro escrito possui vários gêneros literários. Isso inclui “narrativas”, “pronunciamentos proféticos”, “admoestações em forma de sermão”, “diálogos”, “hinos”, “orações”, veja alguns exemplos:

Ex.15.1,22 – “Então cantou Moisés e os filhos de Israel em cântico ao SENHOR, e falaram, dizendo: Cantarei ao SENHOR, porque graciosamente triunfou; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro. [...]Depois fez Moisés partir os israelitas do Mar Vermelho, e saíram ao deserto de Sur; e andaram três dias no deserto, e não acharam água.”[1]
Lucas 3.23 – “E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) Filho de José e José de Heli,”[2]

2.2 – Revelação:

A Bíblia é a revelação de Deus ao homem. Mas o que significa a palavra revelação? A resposta é simples, o conceito de revelação “sugere tirar o véu, abrir, tornar acessível o que, de outra forma, permaneceria desconhecido”.
Isso nos leva para a consideração de que Deus é a fonte final e o doador da revelação. A base fundamental está no fato de que a palavra divina é a revelação desse grandioso Deus; e, o conceito refere-se, primeiro, às palavras enunciadas por Deus. Ele falou ao longo de toda a Criação; notemos a frase dominante no capítulo 1 de Gênesis: “e Deus disse”
Mas, algo precisa ser dito aqui que “Deus falou também palavras que pertencem à redenção. Esta perspectiva nos leva para Êxodo capítulo 20. 1-17; o que temos aqui? “Então falou Deus....” ele falou todas a palavras. Mas, o que ele especificamente falou? “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do egito da casa da servidão”. A Lei nos mostra a redenção em seu prefácio.
Todavia, estas palavras faladas foram transmitidas em linguagem humana inteligível, isto é, em palavras humanas, arranjadas em sentenças e parágrafos.
Neste registro humano temos também a resposta humana. Deus sempre provoca a resposta do homem quando busca manifestar sua justiça, um exemplo claro disso é o Salmo 51; o Saltério (Livro dos Salmos) é compreendido como sendo a resposta humana à revelação de Deus. Deus provoca o homem com sua Santidade para Ter uma resposta de arrependimento um exemplo é Isaías 6.8-13.]

2.3 – As Relações Pactuais:

Qual é o tema central da Bíblia? Alguns estudiosos dizem que é a promessa, outros dizem que é o Reino, mas nós pensamos que o tema central é o Pacto de Deus. A Bíblia é o livro permanente das relações pactuais. O pacto assume conceito central na Palavra de Deus. O que é um pacto? Pacto é uma aliança. Deus entrou em Aliança com o homem desde o éden.
Esta perspectiva assume vital importância em nosso estudo. Pois, temos aqui
2.3.1 – A Bíblia Retrata o pacto em harmonia com o Reino de Deus.

A aliança nos diz que Deus é “o rei por virtude de quem e o que Ele é como Deus; porque ele criou, sustenta e governa, controla e dirige todas as coisas na criação;...” em outras palavras, a aliança fala de Deus como sendo o “Senhor da redenção” e que deve ser contemplado como o “consumador e o Juiz final e absoluto de toda a humanidade”. Essas declarações nos indicam que a Bíblia é um livro que trata do Reino de Deus entre os homens. Esta é a primeira verdade sobre as relações pactuais apresentadas na Bíblia.

2.3.2 – A Bíblia apresenta o Pacto em sua natureza intrínseca.

O que é está em aliança com Deus? A Bíblia nos ensina que é “estar ligado a ele por um laço de vida e amor.” Este laço é divinamente “iniciado e mantido”, este ponto precisa ser considerado quando lemos no Salmo 89. 30-35:
“ Se os seus filhos desprezarem a minha lei e não andarem nos meus juízos, 31 se violarem os meus preceitos e não guardarem os meus mandamentos, 32 então, punirei com vara as suas transgressões e com açoites, a sua iniqüidade. 33 Mas jamais retirarei dele a minha bondade, nem desmentirei a minha fidelidade. 34 Não violarei a minha aliança, nem modificarei o que os meus lábios proferiram. 35 Uma vez jurei por minha santidade (e serei eu falso a Davi?):”

2.3.3 – A Bíblia apresenta-nos que este laço foi iniciado na Criação.

Deus traz o mundo à existência porque tenciona manifestar a sua glória neste mundo. Ao criar o homem Deus decide esculpir no homem a sua imagem (Gênesis 1.26) conforme registra Moisés:“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.”
Ao criar o homem nestes termos Deus estabeleceu “um laço de vida e amor entre ele próprio e a humanidade”. Este é o pacto da Criação. Agora quando Adão e Eva pecaram, tornaram-se quebradores do pacto(Gênesis 2.15-17); eles “romperam o laço de vida e amor de seu lado” (Gênesis 3.6) “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.”
Mas, qual é a ação de Deus? “Deus ,entretanto, manteve suas relações de vida e amor e, afim de restaurar plenamente a humanidade no pacto da criação, então, surge uma nova dimensão do pacto. Ele torna possível a redenção da humanidade em Gênesis 3.15.( pacto da redenção)

III – A MENSAGEM ÚNIFICADA, INTEGRADA E DESENVOLVIDA DA BÍBLIA.

A Bíblia é o registro da vontade de Deus ao homem. Ela trata de duas grandes relações pactuais (criação e redenção), a história da salvação está condida nesta perspectiva pactual da Bíblia. Agora precisamos estudar a respeito desta mensagem. A grande questão é: quantas mensagem possui a Bíblia? E a divisão Antigo e Novo Testamento é legítima? O conflito entre Lei e Graça é verdadeiro? São perguntas que precisam ser respondidas. Devemos considerar algumas realidades:

A. A mensagem da Bíblia é Unificada:

Temos a plena convicção de que o tema de toda a Bíblia é o “Reino de Deus e o Pacto”. Este é o tema controlador de nossa compreensão da Bíblia como Palavra de Deus.

B. A mensagem da Bíblia é Integrada:

Esta mensagem possui diversos elementos que a constitui. Isto porque o Deus Trino decidiu salvar, redimir, resgatar e restaurar uma humanidade perdida. Note estamos falando da Bíblia como o livro do pacto que registra toda a revelação pactual de Deus.

C. A mensagem da Bíblia é Desenvolvida:

Este é o aspcto mais importante para a compreensão dos ensinos na Palavra de Deus. O que queremos dizer com isso?

C.1 – Que a revelação deste pacto é orgânica: A Bíblia que temos em nossa mão não foi dada de uma única vez, Deus falou várias vezes e de várias formas, conforme aprendemos de Hebreus 1.1: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas,”. A revelação de Deus esteve presente como sementes em diversos lugares até nascer uma grande árvores chamada Bíblia Sagrada.

C.2 – A revelação foi Progressivamente revelada: A palavra de Deus foi dada de forma a chegar ao seu climax, assim como uma árvore nasce da sementes e vai crescendo e se desenvolvendo assim foi a questão da Bíblia.

C.3 – A revelação é histórica: A mensagem redentora de Deus na Bíblia vem pelos agentes e circunstâncias históricas. Assim ocorreu nos tempos dos profetas do Antigo e do Novo Testamentos.

IV – CARACTERÍSTICAS DA BÍBLIA:

1. Ela é Singular: Ela é um livro divino-humano, sua mensagem é de origem divina; a Bíblia é também humana, pois, foi escrita por homens (2 Pedro 1.20-21).

2. Ela é um livro do pacto: Ela revela a soberania de Deus, mostrando o amor indomável de Deus pelo povo da aliança.
3. A Bíblia foi escrita dentro da comunidade do pacto: Israel deveria manifestas as virtudes da Lei para toda a humanidade. Pois, foi assim que Deus planejou quando chamou Abraão ( Gênesis 12.1-3)
4. A Bíblia é um livro transcultural: A revelação de Deus na Bíblia não se condiciona a cultura de uma determinada época. Por isso, deve ser recebida como Palavra de Deus.

[1] Este texto começa com uma narrativa e vai para a poesia, depois, volta para a narrativa ;e por fim uma poesia.
[2] note que o texto começa com uma narrativa e termina com uma genealogia.
ENTENDENDO O CREDO APOSTÓLICO.
com
João Ricardo Ferreira de França.[1]
jrcalvino9@gmail.com /jrcalvino9@hotmail.com
jrcalvino9@yahoo.com.br

Boa noite a todos, nós estamos mais uma vez aqui para estudarmos este tão precioso credo, e estamos agora abordando o segundo aspecto doutrinário do credo, ou seja, estamos lidando com: Deus, Filho e a nossa redenção. O nosso último encontro foi salutar, pois, aprendemos sobre a primazia de Cristo no credo. E hoje vamos trabalhar um aspecto que julgo de capital importância para cada um de nós que estamos aqui nesta noite, vejo que muitos tomam nota do que falo, isso é bom, todavia, gostaria que cada um pensasse comigo sobre o que vamos estudar apartir deste momento.
Iremos de fato avaliar o terceiro artigo do credo. Que diz: “Creio em Jesus Cristo[...] o qual foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria...” Quando leio estas palavras fico pensando sobre que tema daria a esta aula de hoje? Seria o ato magno do Espírito Santo? Seria um bom tema para explorarmos nesta aula, todavia, isso seria cometer uma incongruência tamanha, pois, aqui se enuncia o aspeto teológico de Deus, o Filho; então, penso que o tema, não menos valoroso do que o que acabei de especular, seria de fato:
O GRANDE MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO.
Pois bem, este é o tema de nosso estudo desta noite. A doutrina da encarnação sumiu de nossos púlpitos, onde ela está? Por onde anda? Até mesmo em Igrejas confessionais tal doutrina não recebe a devida atenção; estaríamos prontos a vasculhar o credo e procurar nesta doutrina as dracmas perdidas da Igreja? Alguns, têm sugerido que tal doutrina, a encarnação, serve apenas para os círculos acadêmicos. É verdade que muitos de nós aqui pode até pensar desta forma, todavia, não deveria ser visto por este prisma. A encarnação é a doutrina da Igreja – no sentido mais prático do termo – e não pode ser relegada o mero intelectualismo árido que marca o nosso tempo.
O credo quando é recitado na Igreja fala-nos disso de forma muito clara, e precisamos compreender isso da forma mais prática e vivencial possível, este tem sido o meu grande desafio ao ministrar-lhes estas singelas aulas.
O nosso símbolo de fé diz “Creio em Jesus Cristo[...] o qual foi concebido por Obra do Espírito Santo nasceu da virgem Maria...” estas palavras me deixam perplexo, pois, nos comunicam algo mais do que os melhores livros poderiam fazê-lo; estas palavras nos falam que Deus decidiu tornar-se um homem! A Segunda Pessoa da Trindade, Deus, o Filho foi “Concebido”! Nossa! Isso é elevado de mais para cada um de nós aqui nesta noite. Mas é a fé da Igreja e não pode ser negligenciada. Deus veio até os homens em forma humana. Isso é importante para todos nós que somos salvos, sem a encarnação não haveria a possibilidade de redenção.
O credo diz que a Igreja crê na realidade histórica da encarnação. Por que digo isso? Bem, porque muitos têm dito que não existe tal milagre! Vejamos o que podemos aprender sobre tais palavras com muita parcimônia.
A primeira questão que desejo chamar a sua atenção no credo é a expressão: “o qual foi concebido...” a palavra chave para toda a nossa abordagem está aqui “concebido” o termo grego pode ser traduzido por “gerado”, isso nos lembra a afirmação de calcedônia em 451 d.C – “gerado, não feito” – a idéia que o credo nos passa é que Cristo não veio ao mundo por ato criativo de Deus, o que de fato o colocaria na função de criatura de Deus! Gerar é algo mais profundo do que criar.
O que está envolvido aqui diletos irmãos em Cristo? Quando o credo usa o termo “concebido” está nos dizendo que Cristo tinha a mesma natureza do Pai. Reiteremos este assunto porque possui uma capital importância para cada um de nós. A negação deste principio basilar leva-nos para uma linha de uma cristologia truncada, anti-cristã e anti-filosófica.
A encarnação tornou-se possível devido ao papel ativo do Espírito Santo; isso é demonstrado em nosso credo que diz “...foi concebido por obra do Espírito Santo...” quando olhamos para esta declaração nos perguntamos, o que significam estas palavras? Estas palavras significam que O Espírito Santo esteve santificando o ventre da virgem para que esta pudesse receber o Filho de Deus. A obra do Espírito estava vinculado ao fato de que a concepção de Cristo deveria ser basicamente erigida sobre este princípio imperecível. O ventre de Maria deveria ser santificado para que a corrupção do gênero humano não passe para o redentor.
Qual era a função do Espírito Santo neste grande evento da encarnação? Um grande erudito nos diz que a função do Espírito Santo era “conservar a santidade e a impecabilidade daquele que estava para nascer”[2]; estamos de acordo com isso? Sim. Pois a evidência bíblica nos inclina para isto conforme Lucas 1.35.
A obra santificadora do Espírito sobre o ventre da virgem era de notável necessidade uma vez que todos (homens e mulheres) nascemos corrompidos conforme nos ensina o santo apóstolo em Romanos 5.12, era preciso que a doutrina da encarnação preconizada em Gênesis 3.15 encontrasse espaço mediante a ação do Espírito Santo – o descendente prometido deveria vir ao mundo para redimir, ser salvador e só poderia fazê-lo tendo uma natureza livre do pecado.
Isso nos leva para outra verdade ensinada no credo “o qual foi concebido por obra do Espírito Santo nasceu da virgem Maria...”esta declaração do símbolo de fé deixa-me perplexo! Ele nasceu... Cristo veio ao mundo. Deus era uma criança nos colos de uma mortal! Aqui se retrata a profunda humilhação de nosso redentor. Ele nasceu de uma mulher.
Isso era necessário? A resposta deve ser positiva, pois, vemos no nascimento de Cristo o cumprimento de Gênesis 3.15. Ele era o segundo Adão que nos fala o apóstolo em Romanos 5. Ele tinha que ser humano perfeito. A doutrina enunciada aqui nos conduz para a compreensão da solidariedade da raça humana. Cristo partilhou de nossa natureza, ele recebeu uma natureza humana verdadeira – herdada de Maria – todavia, com diz Calvino, uma natureza “viciada a tantas misérias”[3] a humilhação de Cristo está aqui clara diante de nós. O credo confessa isso. Ele se humanizou, e vestiu os trapos de nossa carne. ( Fp. 2.5-11)
O nascimento virginal de Cristo mais a ação soberana do Espírito Santo mostra a novidade da historia redentiva que Deus estava executando. O seu Filho estava vindo ao mundo para redimir o seu povo. O Seu Filho Santo veio habitar com os pecadores.
Note algo fundamental no credo. Não diz que ele veio ser depositado no ventre da virgem! Ele veio nascer. Ele nasceu, o seu nascimento foi natural – não foi algo magistral, foi simples, todavia, foi milagroso, pois, uma virgem gerou o Filho de Deus; aqui ecoa a realização do dito profético de Isaías 7.14 como boas-novas aos pecadores.
Quando o credo diz que ele “nasceu da virgem” se tem em mente mostrar que ele [Cristo] tomou para si uma alma humana verdadeira e que tinha um corpo real verdadeiro tangível ao toque humano Jo. 20.27-28. A Bíblia está repleta desta verdade que não pode ser negada.
Aprendemos pelas Escrituras que ele se “encarnou” conforme lemos em João 1.14; ele habitou entre nós. Já dissemos em outra ocasião que o verbo habitou aqui nesta passagem indica que “Deus tabernaculou”, armou a sua tenda em nosso meio. Ou seja, o nascimento do Filho Deus era a manifestação plena do dito profético que diz “seu nome será Emanuel” que quer dizer “Deus conosco”! Este deve ser o entendimento desta questão da encarnação.
A Bíblia ensina que Cristo tinha uma alma humana verdadeira vemos isso em Mateus 26.38, uma alma que poderia ser marcada pela tristeza; pela angústia de morte! Este é o ponto em questão, ele era homem pleno em sua constituição e negá-lo seria ir contra toda a evidência Bíblica.
Em nossas leituras bíblicas também aprendemos que Cristo de fato nasceu da virgem conforme nos ensina o credo que recitamos dominicalmente, a Bíblia diz que ele nasceu desta virgem que o credo apresenta o nome “Maria” Lucas 1.27,21,42.
Mas o credo está também focalizado na realidade de que o nascimento de Cristo vindo por uma virgem era de fato a inauguração de novo momento na história da redenção dos homens conforme aprendemos em Galátas 4.4 – na plenitude dos tempos – isso indica que o nascimento de Cristo inaugura o fim de uma era marcada pelo pecado e inaugura uma nova época. Ele é a concretização da esperança escatológica do período veterotestamentário. Então, Maria não está em cena neste aspecto de forma alheia a vontade de Deus, mas está exatamente para fazer cumprir o propósito de Deus para a redenção da humanidade que é restaurada em Cristo.
Cabe então, uma pergunta: Maria é co-redentora? Não. Ele não é redentora, mas é redimida pela ação de Deus. Ela crer em seu salvador – bastar ler o seu cântico no Evangelho de Lucas - o que este aspecto do credo sumariza para cada um de nós nesta noite é que Cristo tinha de fato uma natureza humana herdada de sua genitora. Todavia, ela gera a pessoa do redentor que é Deus e homem.
A encarnação de Cristo e sua geração no ventre da virgem nos aponta para a realidade da humanidade perfeita – perfeita? – Sim! Porque Cristo é sem pecado, ou melhor, concebido sem pecado. Isso não quer dizer que a relação marital seria pecado, especialmente neste caso aqui, mas significa que o efeito do ato miraculoso do nascimento virginal chama atenção para a mensagem redentiva de Deus ao homem. A sua concepção no ventre da virgem nos alude a questão de que formos feitos para sermos perfeitos, mas o pecado mudou tudo isso! É no ventre de Maria que pecado começa a ser tratado como deveria ser encarado, ou seja, como algo que corrompe todos os propósitos divinos, por isso, para a resolução do problema chamado de pecado é necessário uma intervenção divina – por isso, temos a menção ao Espírito Santo no credo – o Espírito Santo possibilita a chegada de Cristo ao mundo dos mortais.
Mas, é bom que se diga que o credo está rejeitando a noção gnóstica, conforme já temos abordado, pois, a realidade da encarnação é que Cristo sendo Deus veio até nós pecadores. Isso nos leva a entender que a matéria não é má conforme era ensinado pelos gnósticos. O propósito de tudo é a glória de Deus neste assunto. Deus é glorificado no simples fato de que o seu Filho Jesus Cristo assume a nossa natureza para puder satisfazer a justiça eterna de Deus.
Que lições aprendemos aqui?

1 – Aprendemos que o pecado é algo sério: Cristo vem e se faz homem porque o pecado corrompeu toda a raça humana, e apenas um homem perfeito poderia de fato satisfazer a ira de Deus, por isso, devemos odiar o pecado pois ele corrompe tudo o que deveria ser perfeito.

2. Aprendemos que a humildade é singular no cristianismo: O próprio Cristo nos ensina isso de forma evidente, ele sendo o Senhor do universo, criador de todas as coisas no cosmos decide vestir-se da carne humana. É uma grande lição para cada um de nós aqui. O nosso Deus veio habitar entre nós! Isso exige e nós humildade.

3. Aprendemos que temos esperança: A encarnação de Cristo nos ensina que há uma esperança fundamental na vida da Igreja, é o fato de que a humanidade perfeita foi apresentada a Deus por nosso redentor, isso nos dá esperança de que tudo o que hoje somos – com dor, lágrimas, perdas gritantes e morte – é nada diante da nova era inaugurada pelo Redentor! Temos a certeza de que a nossa humanidade está segura porque o nosso Deus veio e se fez homem e cumpriu as exigências da lei em nosso lugar.
[1] O Autor é membro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É fundador e atualmente lidera a Congregação Presbiteriana da Sagrada Herança Reformada em Prazeres – Jaboatão dos Guararapes.
[2] FERGUSON, Sinclair B. O Espírito Santo, São Paulo: Os Puritanos, 1 edição, 2000, p.50.
[3] CALVINO, João. The Gospel according to John, Edingurgo: St. Andrew Press,1959, p.20.